segunda-feira, 11 de junho de 2012

A Jigsaw - Like a Wolf




A Jigsaw
Like A Wolf
Rewind Music (2009)

Não fosse a música uma linguagem universal, possivelmente a primeira a unir povos e culturas, atravessando fronteiras que desenham um mapa mundo globalizado, e Portugal não seria exactamente o primeiro país onde se encontraria as raízes do Blues e da Folk americana, muito menos o quarteto de Coimbra, A Jigsaw.

Formados em 1999 na cidade dos estudantes, de onde o registo Blues, Country e Folk, faz-se igualmente representar por nomes como The Legendary Tigerman ou Sean Riley & The Slowriders. A Jigsaw conta no seu currículum com o EP Underskin e o auspicioso álbum de estreia, Letters From The Boatman. Like a Wolf, é o terceiro disco da banda composta por João Rui, Susana Ribeiro, Jorri e Marco Silva.

Raízes americanas que se passeam pela Folk, com toques de Blues pantanoso e Country inquieto, onde as vozes e os multi-instrumentos complementam uma harmoniosa combinação de tempos e um trabalho vocal excepcional. Like a Wolf é daqueles discos que limpam os ouvidos. João Rui é um vocalista impressionante que se desdobra por caminhos de Country americano e terras de um Rock lento, sem medo de perder o rumo, enquanto se envolve por efeitos sonoros e coros que o complementam. A música dos Jigsaw é reconhecidamente Americana, mas o estilo empregue pela banda em cada tema de Like a Wolf, certifica-lhe a autenticidade de quem bebe influências no passado, mas faz música no presente. Temas geniais, arranjos personalizados, duetos com Becky Lee (And Drunkfoot) e inspiração para a música, de nomes como, Johnny Cash, Bob Dylan, Leonard Cohen ou Nick Cave.

Disco harmonioso do primeiro ao último minuto, canções que atravessam fronteiras, sinais de um mundo global, onde a união de povos e culturas se faz pela música e os Jigsaw merecem ser descobertos.



Amor Fúria - Depósito de Inúteis




V/A
Depósito de Inúteis
Amor Fúria (2010)

De um convite de Henrique Amaro, através da Optimus Discos, a Amor Fúria organiza-nos uma colectânea do melhor “Roque Enrole” feito em português.

A par com a Flor Caveira, a “Companhia de Discos do Campo Grande” tem trabalhado nos últimos anos para dinamizar a música portuguesa cantada na “língua da nossa mãe”. E o resultado desse esforço e dedicação está à vista, com a diversidade de novos valores que figuram na colectânea Depósito de Inúteis.

Imagem de marca do melhor Rock cantado, pensado e tocado em português. Esta colectânea abre com os novíssimos Capitães na Areia (novos em idade e em experiência musical) como o seu “Bailamos No Teu Micro-Ondas”, contra balançado com o “senhor” Manuel Fúria, o “veterano” desta coletânea e a cara da Editora, que fechas as hostilidades em “Lugar da Cuca”, canção que apela ao nosso lado mais campestre. O desfile continua com os Smix,Smox,Smux, Os Velhos, Feromona, até “encalharmos” nos SALTO, uma banda ao estilo dos Hot Chip, que vão de certeza mudar o tempo, tal como o conhecemos. Chegamos por fim ao expoente máximo da Amor Fúria, Os Golpes, banda ao estilo dos Strokes mas como uma portugalidade semelhante aos Heróis do Mar, de “Quatro Bandidos” não têm nada…

Como o catálogo da Amor Fúria, este Depósito de Inúteis tem muito pouco de inutilidade!



Ana Moura - Leva-me Aos Fados






Ana Moura
Leva-me Aos Fados
Universal (2009)

Desde menina que tem contacto com o Fado. Os seus pais cantavam,  além de outros estilos, o Fado, e o seu pai tocava viola. Os seus fins-de semana eram passados a ouvi-los, em convívio com os amigos, e o Fado foi sentimento que esteve sempre presente. Ao crescer, desenvolveu curiosidade por outros géneros musicais, géneros esses que cantou, mas, que rapidamente preteriu em prol da música de alma portuguesa.

Começou a frequentar o meio fadista e Jorge Fernando foi das primeiras pessoas que conheceu. Foi este, conjuntamente com Tozé Brito, que a convidou a gravar o seu primeiro disco. Desde então, Jorge Fernando acompanha Ana Moura em todo o seu desenvolvimento e em todos os seus trabalhos. É também, além de compositor e Viola, o produtor de todos os seus discos.

O primeiro disco, Guarda-me a Vida na Mão, surge em 2003. No ano seguinte aparece-nos com Aconteceu. Só passados três anos, em 2007, regressa com Para Além da Saudade. E é em 2009 que nos chega Leva-me aos Fados.

Nota-se um amadurecimento de disco para disco, o que se deve, maioritariamente, ao facto da sua opinião estar mais presente, como a própria fadista afirmou. A identidade de Ana Moura faz-se notar mais, o que pode muito bem dever-se ao facto de juntamente com Jorge Fernando ter criado ao longo destes anos de trabalho em conjunto, uma grande cumplicidade. Facto que permite ao compositor perceber o que melhor vai encaixar no perfil da fadista e também o que esta mais aprecia e/ou  pretende.

Por tudo isto, Leva-me aos Fados é o álbum onde os padrões estão mais elevados. Produção que conta com a participação de um grande guitarrista português, Custódio Castelo, que, além de executar genialmente a Guitarra Portuguesa, assume também o papel de co-produtor, aliás, como já tinha acontecido no disco anterior.

Mais uma vez usando palavras da cantora, ela tenta que o canto venha da alma e que a alma tire partido da voz para transmitir aquilo que quer. Isso é algo que influência um elemento musical deveras importante, a dinâmica. E é isso que Custódio Castelo acrescenta ao álbum, muita energia e muita dinâmica.

É um álbum com alta qualidade e criatividade. Numa linha um pouco diferente do registo tradicional, a participação dos Gaiteiros de Lisboa, no tema “Não é um Fado Normal”, representa um afastamento que atinge o pico. Neste tema cria-se uma fusão pouco ou nada usual em Fado.

Leva-me aos Fados é mais sofisticado e esteticamente mais apelativo.  Resultado do amadurecimento também pessoal da fadista. A capacidade técnica de Ana Moura é perfeita!  A sua voz forte é usada com sabedoria e sem excessos, é sublime e envolvente.
Os poemas são tão ou mais importantes no sucesso de um Fado que propriamente a voz que o canta. Neste caso, são a junção perfeita. Soam ambos feitos um para o outro. Ana Moura tem o privilégio de cantar poemas que têm a capacidade de ser bastante actuais mas soarem nostálgicos.

Que dizer mais? A produção, os músicos, as músicas, os poemas e, acima de tudo, Ana Moura estão num registo de qualidade extrema.

Black Bombaim - Saturday's and Space Travel's




Black Bombaim
Saturday’s and Space Travel’s
Lovers & Lollypops (2010)

E tudo começa assim com uma enorme distorção, um som ensurdecedor como um ruído em formas de sinal vindo do espaço que se dissipa na explosão dos motores que arrancam em direcção às viagens espaciais. Em direcção às viagens espaciais ou às viagens no tempo, o tempo dos mestres da guitarra, o tempo de Jimi Hendrix, Randy Rhodes, ou Jimmy Page.

E tem-se a perspectiva da terra lá bem ao longe, na imensidão do Universo, onde, simplesmente, somos pequenos demais para tamanho envolvimento de uma ínfima força sonora. Rolamos numa gravidade que não dominamos, levados em movimentos circulares de um baixo e uma bateria, até ficarmos dopados por riffs colossais de uma guitarra de dimensões atmosféricas que nunca perde a ligação com o corpo de uma “Jam Session” com um “Lado A” e um “Lado B”, meticulosamente orquestrados por um “power-trio” que tem mesmo muito “power”.

E este “power” liberta descargas eléctricas de muitos volts, deixa-nos os pés a tremer e a cabeça a abanar durante 40 minutos de puro transe e alucinação constante. Saturday’s and Space Travel’s ou viagem no tempo a várias décadas do Rock. Porque tudo começa aqui e o “Big Bang” hoje dá-se pelo nome de Black Bombaim.




Blasted Mechanism - Avatara




Blasted Mechanism
Avatara
The A Label (2005)

Praticamente uma década depois de Balayashi, a estreia dos Blasted Mechanism, o projecto artístico de música tocada por seres de outro mundo está de volta com Avatara, quarto álbum de estúdio da carismática banda portuguesa.

Mais uma vez o universo muda, mais uma vez a revolução que altera a essência da terra sobressai por uma imagem extravagante e a música que incorpora sons de todo o mundo, explorando qualquer coisa que se pode rotular por Rock Electrónico ou outra coisa que tal.
Com a participação de nomes tão distintos como Maria João, Dealema e Dj Nelassassin, a revolução em Avatara começa logo com o Single “Blasted Empire”, um império de sons para a introdução de uma vastidão musical onde aqui e ali se vão descobrindo concepções alternativas, misturando o estilo característico da banda e a exploração de novos horizontes. “Sun Goes Down” é mesmo de outro mundo e por entre, sons espaciais, e uma pacificação ambiental, a voz de Karkov é segura e estimulante.

Avatara, é um mundo paralelo, constante em intimidade e recheado de organismos sonoros prontos para revelar o ponto de equilibrio do universo e manter-nos conectados à terra numa produção que amplia ainda mais a dimensão musical de uma das bandas mais interessantes do panorama nacional do último milénio.



Blind Zero - A Way To Bleed Your Lover




Blind Zero
A Way To Bleed Your lover
Universal (2003)

A Way To Bleed Your Lover é um bom disco de Rock. Ao quarto álbum de estúdio os Blind Zero arrumam-se definitivamente para o canto da boa música, derrubando quaisquer tipo de fronteiras e comparações de nacionalismos castradores. Mais sombrio e subtil, menos barulhento e mais suave, este disco dá um passo de gigante na evolução dos Blind Zero. Os arranjos são cuidados, as composições são íntimas, as guitarras estão mais  calmas e a voz de Miguel Guedes mais madura.

Este é um disco que mergulha no lado mais introspectivo da reflexão. Reflexo de um novo momento, um novo imaginário e atitude em direcção à melhor escrita de canções. Faz de temas como o suícido, o sentido lógico de uma realidade distorcida e terrivelmente complexa. Vive de um desiquilibrio constante que se destaca em temas fortes como “You Owe Us Blood”, “Toxic” ou “Nothing Else Goes On”, explosão de tensão que contagia e prende a alma aos acordes que se prendem num mapa sonoro de ambientes mais extensos e abstractos.

Com participação de Jorge Palma e Dana Colley (Twinmen/Morphine), A Way To Bleed Your Lover chega rotulado com selo de qualidade certificada. Resultado da preserverância e trabalho dos Blind Zero, que ao final de 9 anos de existência vêm finalmente o seu valor consagrado com a conquista do prémio Best Portuguese Act, tornando-se a primeira banda portuguesa a receber um prémio MTV


Buraka Som Sistema - Black Diamond




Buraka Som Sistema
Black Diamond
Enchufada/EMI (2008)

From Buraka To The World! Muito provavelmente nem os Buraka Som Sistema esperariam que o título do seu primeiro EP, onde consta a vibrante “Yah!”, viesse a fazer tanto sentido.

Kuduro Progressivo, expressão dos PALOP, expansão da LusofoniaGlobalização de Lisboa à Buraca. Foi assim que o primeiro registo dos Buraka Som Sistema contaminou a cidade e espalhou-se por todos os cantos do país, até sair From Buraka To The World.
Mais difícil ainda que chegar ao topo, especialmente quando essa ascenção foi tão repentina quanto a dos Buraka, é manter. Como manter a euforia da novidade, no primeiro impacto positivo da música que atinge a popularidade e como qualquer fenómeno popular, dura tanto tempo quanto uma bola de sabão?! A resposta é Black Diamond, o primeiro álbum de longa duração dos Buraka Som Sistema.

Com a participação de vários convidados especiais, tais como: M.I.A, Virus Syndicate, Pongolove, Deize Tigrona, Puto Prata e Dj. Znobia. Black Diamond é realmente um diamante negro em bruto. Material precioso que funde a linguagem do Kuduro com o Dubstep, os ritmos de rua, com aromas sul americanos, envolvimentos sonoros que no final têm todo o balaço de uma World Music com valor contemporêneo.

Cultura que sai da Buraca para o mundo, a partir da já conhecida base do Kuduro, terreno que os Buraka Som Sistema conhecem bem e se movimentam, por entre, as raízes africanas de “Sound Of Kuduro” e “Kurum”, o aroma de Luanda e do Rio de Janeiro com Tirozona e o Baile-Funk de “Aqui Pra’ Vocês”", e como não poderia faltar, o passeio pelo Concelho da Amadora onde a cultura de rua é reconhecida como verdadeira arte em “Kalemba(Wegue Wegue)”, “IC19” e “General”.

Música manipulada por um particular enredo sonoro, história de um presente e um futuro dentro das normas da estética moderna e canções de fazer abanar e muito um “cú duro” em progressão para os Buraka Som Sistema se tornarem um dos nomes de culto World Music feita em todo o mundo.