segunda-feira, 11 de junho de 2012

A Jigsaw - Like a Wolf




A Jigsaw
Like A Wolf
Rewind Music (2009)

Não fosse a música uma linguagem universal, possivelmente a primeira a unir povos e culturas, atravessando fronteiras que desenham um mapa mundo globalizado, e Portugal não seria exactamente o primeiro país onde se encontraria as raízes do Blues e da Folk americana, muito menos o quarteto de Coimbra, A Jigsaw.

Formados em 1999 na cidade dos estudantes, de onde o registo Blues, Country e Folk, faz-se igualmente representar por nomes como The Legendary Tigerman ou Sean Riley & The Slowriders. A Jigsaw conta no seu currículum com o EP Underskin e o auspicioso álbum de estreia, Letters From The Boatman. Like a Wolf, é o terceiro disco da banda composta por João Rui, Susana Ribeiro, Jorri e Marco Silva.

Raízes americanas que se passeam pela Folk, com toques de Blues pantanoso e Country inquieto, onde as vozes e os multi-instrumentos complementam uma harmoniosa combinação de tempos e um trabalho vocal excepcional. Like a Wolf é daqueles discos que limpam os ouvidos. João Rui é um vocalista impressionante que se desdobra por caminhos de Country americano e terras de um Rock lento, sem medo de perder o rumo, enquanto se envolve por efeitos sonoros e coros que o complementam. A música dos Jigsaw é reconhecidamente Americana, mas o estilo empregue pela banda em cada tema de Like a Wolf, certifica-lhe a autenticidade de quem bebe influências no passado, mas faz música no presente. Temas geniais, arranjos personalizados, duetos com Becky Lee (And Drunkfoot) e inspiração para a música, de nomes como, Johnny Cash, Bob Dylan, Leonard Cohen ou Nick Cave.

Disco harmonioso do primeiro ao último minuto, canções que atravessam fronteiras, sinais de um mundo global, onde a união de povos e culturas se faz pela música e os Jigsaw merecem ser descobertos.



Amor Fúria - Depósito de Inúteis




V/A
Depósito de Inúteis
Amor Fúria (2010)

De um convite de Henrique Amaro, através da Optimus Discos, a Amor Fúria organiza-nos uma colectânea do melhor “Roque Enrole” feito em português.

A par com a Flor Caveira, a “Companhia de Discos do Campo Grande” tem trabalhado nos últimos anos para dinamizar a música portuguesa cantada na “língua da nossa mãe”. E o resultado desse esforço e dedicação está à vista, com a diversidade de novos valores que figuram na colectânea Depósito de Inúteis.

Imagem de marca do melhor Rock cantado, pensado e tocado em português. Esta colectânea abre com os novíssimos Capitães na Areia (novos em idade e em experiência musical) como o seu “Bailamos No Teu Micro-Ondas”, contra balançado com o “senhor” Manuel Fúria, o “veterano” desta coletânea e a cara da Editora, que fechas as hostilidades em “Lugar da Cuca”, canção que apela ao nosso lado mais campestre. O desfile continua com os Smix,Smox,Smux, Os Velhos, Feromona, até “encalharmos” nos SALTO, uma banda ao estilo dos Hot Chip, que vão de certeza mudar o tempo, tal como o conhecemos. Chegamos por fim ao expoente máximo da Amor Fúria, Os Golpes, banda ao estilo dos Strokes mas como uma portugalidade semelhante aos Heróis do Mar, de “Quatro Bandidos” não têm nada…

Como o catálogo da Amor Fúria, este Depósito de Inúteis tem muito pouco de inutilidade!



Ana Moura - Leva-me Aos Fados






Ana Moura
Leva-me Aos Fados
Universal (2009)

Desde menina que tem contacto com o Fado. Os seus pais cantavam,  além de outros estilos, o Fado, e o seu pai tocava viola. Os seus fins-de semana eram passados a ouvi-los, em convívio com os amigos, e o Fado foi sentimento que esteve sempre presente. Ao crescer, desenvolveu curiosidade por outros géneros musicais, géneros esses que cantou, mas, que rapidamente preteriu em prol da música de alma portuguesa.

Começou a frequentar o meio fadista e Jorge Fernando foi das primeiras pessoas que conheceu. Foi este, conjuntamente com Tozé Brito, que a convidou a gravar o seu primeiro disco. Desde então, Jorge Fernando acompanha Ana Moura em todo o seu desenvolvimento e em todos os seus trabalhos. É também, além de compositor e Viola, o produtor de todos os seus discos.

O primeiro disco, Guarda-me a Vida na Mão, surge em 2003. No ano seguinte aparece-nos com Aconteceu. Só passados três anos, em 2007, regressa com Para Além da Saudade. E é em 2009 que nos chega Leva-me aos Fados.

Nota-se um amadurecimento de disco para disco, o que se deve, maioritariamente, ao facto da sua opinião estar mais presente, como a própria fadista afirmou. A identidade de Ana Moura faz-se notar mais, o que pode muito bem dever-se ao facto de juntamente com Jorge Fernando ter criado ao longo destes anos de trabalho em conjunto, uma grande cumplicidade. Facto que permite ao compositor perceber o que melhor vai encaixar no perfil da fadista e também o que esta mais aprecia e/ou  pretende.

Por tudo isto, Leva-me aos Fados é o álbum onde os padrões estão mais elevados. Produção que conta com a participação de um grande guitarrista português, Custódio Castelo, que, além de executar genialmente a Guitarra Portuguesa, assume também o papel de co-produtor, aliás, como já tinha acontecido no disco anterior.

Mais uma vez usando palavras da cantora, ela tenta que o canto venha da alma e que a alma tire partido da voz para transmitir aquilo que quer. Isso é algo que influência um elemento musical deveras importante, a dinâmica. E é isso que Custódio Castelo acrescenta ao álbum, muita energia e muita dinâmica.

É um álbum com alta qualidade e criatividade. Numa linha um pouco diferente do registo tradicional, a participação dos Gaiteiros de Lisboa, no tema “Não é um Fado Normal”, representa um afastamento que atinge o pico. Neste tema cria-se uma fusão pouco ou nada usual em Fado.

Leva-me aos Fados é mais sofisticado e esteticamente mais apelativo.  Resultado do amadurecimento também pessoal da fadista. A capacidade técnica de Ana Moura é perfeita!  A sua voz forte é usada com sabedoria e sem excessos, é sublime e envolvente.
Os poemas são tão ou mais importantes no sucesso de um Fado que propriamente a voz que o canta. Neste caso, são a junção perfeita. Soam ambos feitos um para o outro. Ana Moura tem o privilégio de cantar poemas que têm a capacidade de ser bastante actuais mas soarem nostálgicos.

Que dizer mais? A produção, os músicos, as músicas, os poemas e, acima de tudo, Ana Moura estão num registo de qualidade extrema.

Black Bombaim - Saturday's and Space Travel's




Black Bombaim
Saturday’s and Space Travel’s
Lovers & Lollypops (2010)

E tudo começa assim com uma enorme distorção, um som ensurdecedor como um ruído em formas de sinal vindo do espaço que se dissipa na explosão dos motores que arrancam em direcção às viagens espaciais. Em direcção às viagens espaciais ou às viagens no tempo, o tempo dos mestres da guitarra, o tempo de Jimi Hendrix, Randy Rhodes, ou Jimmy Page.

E tem-se a perspectiva da terra lá bem ao longe, na imensidão do Universo, onde, simplesmente, somos pequenos demais para tamanho envolvimento de uma ínfima força sonora. Rolamos numa gravidade que não dominamos, levados em movimentos circulares de um baixo e uma bateria, até ficarmos dopados por riffs colossais de uma guitarra de dimensões atmosféricas que nunca perde a ligação com o corpo de uma “Jam Session” com um “Lado A” e um “Lado B”, meticulosamente orquestrados por um “power-trio” que tem mesmo muito “power”.

E este “power” liberta descargas eléctricas de muitos volts, deixa-nos os pés a tremer e a cabeça a abanar durante 40 minutos de puro transe e alucinação constante. Saturday’s and Space Travel’s ou viagem no tempo a várias décadas do Rock. Porque tudo começa aqui e o “Big Bang” hoje dá-se pelo nome de Black Bombaim.




Blasted Mechanism - Avatara




Blasted Mechanism
Avatara
The A Label (2005)

Praticamente uma década depois de Balayashi, a estreia dos Blasted Mechanism, o projecto artístico de música tocada por seres de outro mundo está de volta com Avatara, quarto álbum de estúdio da carismática banda portuguesa.

Mais uma vez o universo muda, mais uma vez a revolução que altera a essência da terra sobressai por uma imagem extravagante e a música que incorpora sons de todo o mundo, explorando qualquer coisa que se pode rotular por Rock Electrónico ou outra coisa que tal.
Com a participação de nomes tão distintos como Maria João, Dealema e Dj Nelassassin, a revolução em Avatara começa logo com o Single “Blasted Empire”, um império de sons para a introdução de uma vastidão musical onde aqui e ali se vão descobrindo concepções alternativas, misturando o estilo característico da banda e a exploração de novos horizontes. “Sun Goes Down” é mesmo de outro mundo e por entre, sons espaciais, e uma pacificação ambiental, a voz de Karkov é segura e estimulante.

Avatara, é um mundo paralelo, constante em intimidade e recheado de organismos sonoros prontos para revelar o ponto de equilibrio do universo e manter-nos conectados à terra numa produção que amplia ainda mais a dimensão musical de uma das bandas mais interessantes do panorama nacional do último milénio.



Blind Zero - A Way To Bleed Your Lover




Blind Zero
A Way To Bleed Your lover
Universal (2003)

A Way To Bleed Your Lover é um bom disco de Rock. Ao quarto álbum de estúdio os Blind Zero arrumam-se definitivamente para o canto da boa música, derrubando quaisquer tipo de fronteiras e comparações de nacionalismos castradores. Mais sombrio e subtil, menos barulhento e mais suave, este disco dá um passo de gigante na evolução dos Blind Zero. Os arranjos são cuidados, as composições são íntimas, as guitarras estão mais  calmas e a voz de Miguel Guedes mais madura.

Este é um disco que mergulha no lado mais introspectivo da reflexão. Reflexo de um novo momento, um novo imaginário e atitude em direcção à melhor escrita de canções. Faz de temas como o suícido, o sentido lógico de uma realidade distorcida e terrivelmente complexa. Vive de um desiquilibrio constante que se destaca em temas fortes como “You Owe Us Blood”, “Toxic” ou “Nothing Else Goes On”, explosão de tensão que contagia e prende a alma aos acordes que se prendem num mapa sonoro de ambientes mais extensos e abstractos.

Com participação de Jorge Palma e Dana Colley (Twinmen/Morphine), A Way To Bleed Your Lover chega rotulado com selo de qualidade certificada. Resultado da preserverância e trabalho dos Blind Zero, que ao final de 9 anos de existência vêm finalmente o seu valor consagrado com a conquista do prémio Best Portuguese Act, tornando-se a primeira banda portuguesa a receber um prémio MTV


Buraka Som Sistema - Black Diamond




Buraka Som Sistema
Black Diamond
Enchufada/EMI (2008)

From Buraka To The World! Muito provavelmente nem os Buraka Som Sistema esperariam que o título do seu primeiro EP, onde consta a vibrante “Yah!”, viesse a fazer tanto sentido.

Kuduro Progressivo, expressão dos PALOP, expansão da LusofoniaGlobalização de Lisboa à Buraca. Foi assim que o primeiro registo dos Buraka Som Sistema contaminou a cidade e espalhou-se por todos os cantos do país, até sair From Buraka To The World.
Mais difícil ainda que chegar ao topo, especialmente quando essa ascenção foi tão repentina quanto a dos Buraka, é manter. Como manter a euforia da novidade, no primeiro impacto positivo da música que atinge a popularidade e como qualquer fenómeno popular, dura tanto tempo quanto uma bola de sabão?! A resposta é Black Diamond, o primeiro álbum de longa duração dos Buraka Som Sistema.

Com a participação de vários convidados especiais, tais como: M.I.A, Virus Syndicate, Pongolove, Deize Tigrona, Puto Prata e Dj. Znobia. Black Diamond é realmente um diamante negro em bruto. Material precioso que funde a linguagem do Kuduro com o Dubstep, os ritmos de rua, com aromas sul americanos, envolvimentos sonoros que no final têm todo o balaço de uma World Music com valor contemporêneo.

Cultura que sai da Buraca para o mundo, a partir da já conhecida base do Kuduro, terreno que os Buraka Som Sistema conhecem bem e se movimentam, por entre, as raízes africanas de “Sound Of Kuduro” e “Kurum”, o aroma de Luanda e do Rio de Janeiro com Tirozona e o Baile-Funk de “Aqui Pra’ Vocês”", e como não poderia faltar, o passeio pelo Concelho da Amadora onde a cultura de rua é reconhecida como verdadeira arte em “Kalemba(Wegue Wegue)”, “IC19” e “General”.

Música manipulada por um particular enredo sonoro, história de um presente e um futuro dentro das normas da estética moderna e canções de fazer abanar e muito um “cú duro” em progressão para os Buraka Som Sistema se tornarem um dos nomes de culto World Music feita em todo o mundo.










Capicua - Capicua




Capicua
Capicua
Optimus Discos (2012)

É de todo invulgar assistir a exemplos de vozes femininas no domínio da arte da citação, no que diz respeito ao Hip Hop feito em Portugal. Partido deste presuposto, seria de todo inesperado que a estreia de Capicua nos despertasse para a visão de um novo caminho por explorar.

A perspicácia, a atitude e confiança como a MC do Porto aborda o jogo das sensações, são como uma brisa de ar fresco para as palavras que já todos conhecemos. A irreverência de Capicua é evidente e inequívoca. Para além disso, existe uma construção lúdica, que se entende nos bastidores das volltas e voltas de batidas fabricadas por obreiros como o D-One, Sam The Kid, Xeg e Nel Assassin. Capicua não tem qualidade só porque existe inovação na mulher Maria. Tem qualidade, sem qualquer guerra de sexos numa qualquer comparação. Está repleto de versos, de pensamentos, de música e de personalidade.

A estreia de Capicua é novidade e inovação. É pós-graduação de uma atitude nova que apesar da sua curta vida, já merece figurar numa qualquer lista da música portuguesa do novo milénio.


Clã - Lustro




Clã
Lustro
EMI-VC (2000)

“É para nós o melhor disco!”. Foi desta forma que os Clã definiram o resultado de 8 anos de vida, muitos concertos no corpo e toda uma experiência que resulta no seu terceiro álbum de originais, Lustro.

Músicas de amor e de “Depois do Amor”, do “Bem vs O Mal”, de alegrias e tristezas no “Sopro do Coração” e no “Sangue Frio” que aquece na “Dança da Corda Bamba”. Lustro é um disco requintado que dá início ao que de melhor se tem feito na música portuguesa do novo milénio. Assente maioritariamente sobre o alinhamento dos instrumentos base do Rock, este disco tem a intensidade suficiente para nos fazer “Saltar na Corda Bamba” medindo a temperatura elevada à escala de “Fahrenheit”. Por outro lado, tem a subtileza de “Sopro no Coração” e de “Lado Esquerdo”, o lado onde o coração se exprime com toda a delicadeza e ternura. E em todo este carrossel de sensações não nos podemos esquecer que há a voz de Manuela Azevedo, com a agressividade e a subtileza medidas a conta peso e medida. Há a forma exímia de escrever de Carlos Tê, a maneira genuína de dizer as coisas de Manel Cruz e a ilustração perfeita do “Sopro do Coração” na visão de Sérgio Godinho.

Muito mais que diversidade musical, Lustro, representa como escrever bem em português, porque em português tudo faz outro sentido. Representa o Pop Rock nacional por excelência, recebendo os aplausos da crítica com os Prémios Blitz para Melhor Álbum, Melhor Voz Feminina e Melhor Banda no ano 2000. Consagra os Clã como uma das bandas mais importantes do panorama musical em Portugal, é presença constante nas listas dos álbuns mais importantes dos anos 00 e marca o início do que de melhor se tem feito na música portuguesa do novo milénio.




David Fonseca - Dreams in Colour




David Fonseca
Dreams in Colour
Universal (2007)

Ao terceiro album a solo, David Fonseca aparece-nos a sorrir! O cantor Leiriense sempre teve a música como prioridade, e apesar de uma carreira replete de sucessos, as tentações do “comercialismo” nunca demoveram a vontade de querer fazer sempre mais e melhor.

Dreams in Colour de todos os registos editados por David Fonseca até à data, é seguramente o mais descontraído. Todo este disco transpira a Pop. Um Pop/Rock subtil e agridoce que não se priva de ir à descoberta de novos sons e particularidades.

Um conjunto de 11 novos temas que libertam boa disposição levada por meios simples e eficazes, de gentileza. E assim ouvimos “4 Chance”, um cocktail sonoro agitado por uma sequência de palmas e uma guitarra cheia de energia. “Kiss Me, Oh Kiss Me”, é desejo de verão que se ansea num piano fascinante e um refrão “catchy”. No programa de festas que se segue, ainda se podem destacar “Silent Void”, “I See The World Thought Enough” ou “Superstars II”, momentos de pura inspiração, convites à dança e a Dreams In Colour.

Resumidamente, David Fonseca mostra mais uma vez a sua veia artística, onde corre um sangue criativo que nos preenche os sonhos com belas imagens, espírito positivo e Dreams In Colour.







Dapunksportif - Electric Tube Riot




Dapunksportif
Electro Tube Riot
Edição do Autor (2008)

Sem floreados e contemplações. O mais recente trabalho dos Dapunksportif não tem qualquer tipo de misericórdia para com os fracos e oprimidos, é Rock curto e grosso. E quem não gostar que ponha à beira do prato, Electric Tube Riot não está aqui para agradar ninguém, está para apresentar um conjunto de 11 temas Rock n’ Roll à boa maneira de Led Zeppelin, Motorhead ou Queens of the Stone Age.

Repleto de rebelião “old school” dos anos 70 e aproximações ao espírito Hard Rock/Heavy Metal dos anos 80, este segundo registo do quarteto de Peniche, liderado pelas guitarras de João Guincho e Paulo Franco, tem electricidade de sobra para várias descargas de riffs musculados e solos estonteantes, aos quais se juntam um baixo que mantém a banda ligada à terra e uma bateria que ficou a cargo de ilustres convidados como: Marco Jung, Zé Carlos, Fred e Kalú (Xutos e Pontapés).

Música robusta e com fibra. Um disco com garra e atitude. Uma produção sem rodeios que vai directa a uma sonoridade forte e crúa que nos atropela o corpo e nos desfaz o cérebro com a força suficiente para nunca mais voltarmos a ser os mesmos. Simplesmente: colossal.






Da Weasel - Re-Definições




Da Weasel
Re-Definições
Capitol (2004)

O que dizer de uma banda que chega ao sexto álbum de estúdio com o mesmo vulgor apresentado na estreia? O que dizer da musicalidade ecléctica de 6 músicos talentosos e a da “doninha” que não para de desbravar caminho na melhor música contemporânea feita em Portugal? Re-Definições é provavelmente o disco que faltava.

É uma realidade que os Da Weasel dispensam apresentações. Álbuns como Dou-lhe Com Alma ou Iniciação a Uma Vida Banal – O Manual, e singles como, “Adivinha Quem Voltou”, “Outro Nível” ou “Tás Na Boa”, anteciparam desde sempre a qualidade certificada da banda de Almada. Mas, tal como, todo produto de qualidade, a excelência que lhe é reconhecida de tempos em tempos carece de uma natural revisão, o mesmo que dizer, carece de Re-Definições.

Este disco é um um convite à dança repleta de vibração e contágio. Com uma profundidade quanto baste e uma excitação controlada, as festividades deste disco fazem-se de prazerosos momentos que condimentam ingredientes de Hip Hop, Rock, Funk, Dub e Soul, mantendo a admirável capacidade de elaborar saborosos cozinhados de sons que os Da Weasel desde sempre revelaram.

Pac Man é claramente um grande letrista assinando e cantando em colaboração com Virgul, as letras que “re-definem” o olhar atento sobre o quotidiano. Relatos directos e sem contemplações sobre abordagem crítica ao dia-a-dia comum que não se preocupa em agradar ninguém. Voz concisa e carismática que revela a personalidade forte e o universo de sons e ambientes onde os Da Weasel inquestionavelmente sabem andar.

Embora, não fugindo muito da zona de conforto que a banda nos foi habituando ao longo dos anos, Re-Definições, tem capítulos interessantes e cenários estimulantes. “Re-Tratamento”, “Carrossel” ou “Baile (Aquele Beat)”, são algumas das cenas que vão passando bem ao longo de 19 temas que “re-definem” o percurso assinalável de uma das bandas mais carismáticas dos nossos tempos.




Dead Combo - Lisboa Mulata




Dead Combo
Lisboa Mulata
Dead & Company (2011)

Há muito que os Dead Combo nos habituaram a uma sonoridade singular onde uma guitarra e um contrabaixo reinventam ambientes típicos do Fado, Tango e Morna. Muitas são as referências que podem ser apontadas na musicalidade de Trips e Pedro Gonçalves, mas a realidade é que o estilo desta dupla é uma referência por si só.

Nesta Lisboa Mulata ouvimos música que vai directa à alma do ser português, aquele que ouve o Fado, aquele que tem saudades de África e que exalta uma portugalidade que muitos esquecem e outros fingem esquecer sobre uma Lisboa Cosmopolita. Um espírito global que em música traduz-se pela diversidade de sons e estilos que tomam conta da musicalidade dos Dead Combo. E o mais interessante da música de Tó Trips e Pedro Gonçalves, é que apesar de esta se desdobrar por referências e influências, volta sempre ao ponto de partida de um imaginário que é feito a dois. Música contemporânea, pensamentos e ideias do presente.

Lisboa Mulata é disco feito da rua de uma Lisboa que tem tanto de tradicional quanto de eclética, exactamente como a música dos Dead Combo.


Diabo na Cruz - Virou!




Diabo na Cruz
Virou!
Flor Caveira (2009)

È com aquela súbita sensação de realização que descobrimos a essência dos Diabo na Cruz. É aquela empatia ao primeiro contacto (no mundo das relações humanas esta sensação define-se por química) que ouvimos a música tradicional portuguesa e a música moderna portuguesa e, Virou!

Virou, a moda do nosso Pop Rock, voltou o Fausto e o “Milho Verde” do Zeca Afonso, mais as cachopas que não rodavam as saias desde o Pop Folclore de António Variações e, Ouvimos!

Ouvimos o “Regresso da Lebre” e, Vitorino acompanhado por um adufe num verdadeiro cantar alentejano exorcizando o Diabo na Cruz que trás o corridinho nas guitarras eléctricas, os provérbios e, é “Tão Lindo!”

Ai é “Tão Lindo”, ouvir estes teclados desenfreados e os tambores refinados a desbravar campos de trigo enamorados pela “Dona Ligeirinha”, que diz!

Diz que “Os Loucos Estão Certos”, há mesmo “Casamento” entre o passado popular e a modernidade, entre Música Tradicional Portuguesa e o Pop Rock que apaixona!

Apaixona o “D. Fuas Roupinho” que vê o Diabo no Chiado, fecha a loja e, canta uma canção!

Canta a “Canção do Monte”, embala o “Corridinho de Verão” cheio de ritmo e alegria porque há muito tempo que não se via bom tempo, nem se cantava a tradição assim e, o diabo!

O diabo está na cruz, o prazer está na ideia, a simplicidade que voltou e a música que Virou!





Expensive Soul - Utopia




Expensive Soul
“Utopia”
New Max Records (2010)

O último álbum de uma banda, neste caso um Duo, é sempre aquele que denota mais maturidade, caso contrário havia uma evidente estagnação. O último álbum dos Expensive Soul, prova que New Max e Demo não estagnaram mas, ao invés, evoluíram e bem. Estão, além de mais maduros, mais conscientes do que querem e da sua identidade. Estão mais autênticos e mais fiéis a si próprios.

A par da maturidade musical está a maturidade e crescimento pessoal que se fazem notar nas letras das músicas. São letras com apelos à responsabilidade, honestidade e romantismo. Em Utopia, o tempo é precioso, é para ser aproveitado e não se pode desperdiçar, chegando o momento de todas as decisões.

O Duo que é essencialmente Hip Hop “tuga”, implementou-se como tal. Mas neste disco vêm muito mais ao de cima as influências da Soul, Rythm’n’ Blues e Funk que já estavam presentes nos trabalhos anteriores.

Estamos na presença de um disco urbano, com som vintage, propositadamente, não desmistificando a pureza do som vinil. Mantém o balanço e a dinâmica permanentes com uma vibração intensa e cheia de Groove.

É uma Utopia de amor, pode dizer-se que sim. Mas, acima de tudo, é um disco que contagia do início ao fim e que continua a escrever bem a história dos Expensive Soul.



Filho da Mãe - Palácio




Filho da Mãe
Palácio
Rastilho (2011)

Foi nos If Lucy fell, I Had Plans e Asneira que se deu a conhecer. É na guitarra portuguesa e em Palácio que Rui Carvalho se tornou um verdadeiro Filho da Mãe.

Formado na escola do Rock e do Hardcore, o dedilhar de cordas deste Filho da Mãe tem alma e paixão, tem prazer e sedução. Palácio faz-se de intensidade sonora carregada de dinamismo ao bom velho estilo de mestres da guitarra como Carlos Paredes ou Paco de Lúcia. E falar neste bom velho estilo, é o mesmo que falar numa dimensão sonora repleta de intensidade, fluidez e técnica. São descrições de sensações que ao longo do tempo vão definindo a sinceridade e a intimidade na relação do homem com a guitarra e, as suas canções.

A beleza deste disco reside precisamente nas canções, onde brilha a genialidade de Rui Carvalho e a forma como apresenta Palácio, um sítio antigo em Lisboa, onde ainda vive gente, cheira a cigarros e ouvem-se guitarras. Ouve-se a linguagem muito própria de um Filho da Mãe que improvisa e contagia sem truques ou artimanhas e sim, uma total entrega ao instrumento que conhece como ninguém.

Palácio é a exposição de uma identidade. É o apelo à criatividade que mistura na perfeição a modernidade com a tradição numa musicalidade arrebatadora capaz de unir o passado e o presente. Um disco surpreendente do qual só poderia ser possível na imaginação e devoção de um verdadeiro Filho da Mãe.


Halloween - A Árvore Kriminal




Halloween
Árvore Kriminal
Sonoterapia (2011)

“Há uma festa no cimo da colina, na casa branca, na cidade perdida/ Não sei se sentes o som que paira no ar, vai começar, ninguém pode faltar”. É assim que passados 5 anos do aclamado Projecto Mary Witch, Halloween ressuscita do túmulo no reino das trevas e faz o Convite para Árvore Kriminal, o regresso aos discos de um dos grandes do Hip Hoptuga”.

Cavernoso, implacável e ameaçador, é o estilo que melhor define este Rapper que não tem medo do significado cruel das palavras. Fala-se das suas qualidades como MC, tal como se fala mal nas suas costas e, dos “mudafuckas”, às serpentes que rastejam à sua volta, em Árvore Kriminal ninguém é poupado pela violência e fluência das rimas. As rimas que se vão compondo em tons sombrios, tons de uma voz rouca que não faz Rap, canta Rap. Canta Rap que não se preocupa em agradar, preocupa-se em identificar e denunciar os podres do “Jardim à Beira Mar” onde “nasceram morangos e floribelas na campa de Salazar”.

Um poeta da rua, da periferia de Lisboa, dos subúrbios de uma cidade onde o cenário é montado por imagens de terror na visão de quem vê o mundo mudar sem que nada mude. E assim flui Árvore Kriminal e aquela capa com a mão de madeira deformada, isolada num ambiente desolador pintado de vermelho, vermelho morte. Aquele final tão aguardado por todos os que ouviram falar nos milagres de “Mary Witch”.

A alma de Halloween não se faz de “mainstream”, faz-se de flow no Underground “tuga”, Rap de rua, produção ameaçadora dos confins de temas poderosos como “Não Há Luz No Meu Quarto”, “Um Jardim À Beira Mar” ou “Aleluia A Ressurreição do Kriminal”. Todo aquele Hip Hop que faz falta ao pequeno mundo dos mortais, que não se alimenta de ostentação, nem se afirma por ideologias vendidas.

Ergamos então os braços aos céus “brother”, o anjo das trevas voltou. Com ele não há “mercy” para os “enemies”, nem perdão do “jesus christ”. Há um “rufia” à moda antiga, um vingador da “street”, a “street” que trouxe para as canções e as canções que fazem de Árvore Kriminal um álbum fenomenal.











Humanos - Humanos




Humanos
Humanos
EMI (2004)

Quando achamos um tesouro, guardamos para não perder. Este tesouro não podia ser guardado, tinha, obrigatoriamente, que ser partilhado de tão precioso que era para o mundo musical. Mas o tesouro não estava completo, não estava em condições de ser mostrado no seu esplêndor e teve que ser trabalhado.

António Variações teve um percurso curto na música, gravou apenas 2 Singles e dois LPs, num curto espaço de tempo, entre 1982 e 1984, ano em que viria a morrer prematuramente. Apesar da curta carreira, foi dos artistas que mais deu que falar, tanto pelo seu estilo peculiarmente extravagante e excêntrico como pelo seu inovador estilo musical. Não é em vão quando se diz que nasceu antes de tempo, pois teve visões e noções de musicalidade, do que podia ser misturado ou não, e nunca viu contradições em conjugar todas as suas influências musicais, fossem de que géneros fossem. Foi, portanto, um dos músicos que mais influenciou a música portuguesa e que ainda continua a influenciar. Basta dar-nos conta de como a sua música mantém uma actualidade impressionante.

As músicas estavam lá, as letras também estavam lá e as maquetes tinham o mais importante, a criatividade única de António Variações. E assim nascem os Humanos.
Há sete dias da semana, sete notas musicais, sete cores no arco-íris. O número da perfeição, 7, foi o número de músicos no projecto. Os mistérios do doze dizem respeito às relações entre o abstrato e o concreto, entre a Trindade e o mundo material. Este foi o número de músicas, 12. O que não deixa de ser curioso, pois Variações defini-se  como algo abstracto, mas era bastante objectivo em relação à  sua música.

Curiosodades à parte, este projecto é muito bem conseguido, sem descurar a imagem e a sonoridade altamente particular de um dos maiores nomes da Pop nacional. É talvez um pouco mais fresco e mais aberto do que o músico nos habituou. Mas convenhamos que Humanos é um projecto de tributo/homenagem e não de imitação. Cada músico trouxe a sua própria identidade e aquilo que as músicas e letras os faziam sentir, transpondo depois nas interpretações. É normal dar-se destaque às vozes, Camané, Manuela Azevedo e David Fonseca. É o confronto/destaque maior que encontramos em comparação com Variações

Uma vez que este tinha uma verdadeira paixão pelo Fado e a sua própria voz e timbre tinham algo do género, Camané foi das vozes mais bem conseguidas. A voz de um fadista carrega sempre mais qualquer coisa que outro vocalista não tem, fazendo, francamente, lembrar a alma que António Variações colocava em todas as suas performances, quer fossem em estúdio ou ao vivo. David Fonseca tem uma voz que traz a tal frescura às canções que interpreta. Manuela Azevedo fica assim que a meio de ambos. Além do mais, é uma voz feminina a interpretar músicas que o músico compôs para si próprio e não para uma mulher.

De uma maneira geral, a visão dos Humanos está fez-me muito mais Pop do que as próprias maquetes transmitiriam, mas seguramente que isso não desagradaria a António Variações, artista que foi verdadeiramente popular, que acolheu o nome “Variações” porque gostava da definição de elasticidade, liberdade e flexibilidade que o nome trazia. E o mais importante é sentir que o artista não foi defraudado, mas sim abordado por músicos experientes e conscientes da importância que um disco destes tem, sem quererem mérito para si próprios mas sinceramente honrar um nome grande da música portuguesa. É raro ver casos assim de sucesso. O mérito é dos artistas que não pediram protagonismo para si mas sim para a música, a música de António Variações.
    


If Lucy Fell - You Make Me Nervous



If Lucy Fell
You Make Me Nervous
Rastilho (2005)

É evidente as alterações sofridas pela música portuguesa no novo milénio. O panorama musical português apresenta-se cada vez mais diversificado e não restam dúvidas que boas bandas felizmente vão aparecendo e projectos de qualidade vão-se evidênciando ao nível das melhores referências internacionais que sempre fomos tendo. Um desses exemplos são os recém-chegados If Lucy Fell e o seu álbum de estreia, You Make Me Nervous.

Formados em 2004, na cidade de Lisboa, os If Lucy Fell são Hélio Morais (Bateria), Rui (Guitarra), Gaza (Baixo) e Makoto (voz). Filhos de uma geração que irradia criatividade, o quarteto lisboeta tem na escola do Hardcore as referências que os conduzem por caminhos de Rock, roçando ritmos desfragmentados de Metal, atitude Punk e Psicadelismo desconcertante acompanhado da urgência de uma voz suja e alterada.

You Make Me Nervous, não soa nada mais do que a si próprio e os If Lucy Fell não pretendem ser mais ninguém do que a eles próprios. O disco abre com as poderosas “As Simple As Giving A Name To This Song”, “10x10 Minute Drive” e “What She Fell”, turbilhão de Riffs e sons ruidosos, rápidos e secos que apresentam um álbum repleto de explosões sonoras e intensidade electrificante que nos atinge da cabeça aos pés. “Together In Stupidity” é balanço e combatividade na mais perfeita das alianças, “Something Complicated” é uma terrorismo sónico e “Escapist” é um apelo instrumental que transforma o final de You Make Me Nervous num momento épico.

Frenético, descontrolado e electrizante. Em suma, o disco de estreia dos If Lucy Fell é qualquer coisa de arrebatador. É a prova viva que o Underground português está de boa saúde e recomenda-se. É  a constatação óbvia que a música portuguesa do novo milénio está a mudar e velhos estigmas que se dissipem, porque o que é nacional, é mesmo bom.






Jorge Cruz - Sede




Jorge Cruz
Sede
Discos Norte Sul (2004)

Depois dos Supernada e do Pequeno Aquiles é com surpresa que ouvimos o lado “suave” de Jorge Cruz. Como se nos guiasse à intimidade de emoções cruas que nos fazem pensar, Sede, é uma viagem às profundezas das nossas memórias, de volta a um qualquer passado tão longínquo que parece nem ter existido.

Muito mais do que 9 canções, este é um disco de poesia, a palavra é o mais importante da exposição do lado mais intimista do cantor. As influências aqui são muitas, o Fado, o Jazz, a Folk, cheiram-se os fadistas das vielas de Lisboa em canções como “Fado de Uma Rua Qualquer” e  sente-se profundidade lírica de Bob Dylan em “Perdas e Danos”. Aqui há musicalidade e harmonia, indiferente das influências ou do estilo que lhe encontremos, Sede é um disco homógeneo para se beber ou ir bebendo calmamente.

E a certa altura Jorge Cruz diz: “vá muda-me que eu só não mudo”. Mas na realidade em Sede, Jorge Cruz mudou, e mais que isso, mudou-nos também.





Jorge Palma - No Tempo dos Assassinos




Jorge Palma
No tempo dos Assassinos
EMI – Valentim de Carvalho (2002)

33 canções distribuídas por 2 CD’s que voltam a trazer Palma no seu maior esplendor.  Sozinho, despido de grandes roupagens e arranjos musicais, ele e um piano ou uma viola, puxando-nos para uma atmosfera de intimidade, onde se ouve com sede e com prazer as palavras que vão sendo cantadas.

Apesar de ter começado a sua carreira em 1975, o seu trabalho discográfico resume-se a 8 álbuns, o que eu faz deste duplo CD uma espécie de antologia da sua obra. 30 anos de carreira que apresentação ao vivo no Teatro Villaret parece vir comemorar e, passados tantos anos, Jorge Palma continua a conseguir conservar aquele ar de músico de rua que a qualquer altura podemos encontrar no metro a tocar uma das suas pérolas por puro prazer.
Letrista ímpar na cena musical portuguesa, viu nos últimos anos alguns dos seus temas mais emblemáticos caírem no esquecimento. No Tempo dos Assassinos a memória reaviva-se e canções fenomenais como “Jeremias O Fora-da-Lei”, “Bairro do Amor” ou “Senhora da Solidão”, voltam a estar no nosso dia-a-dia para serem escutadas e cantadas com uma lágrima no canto do olho.

Se por um lado este álbum nos trás os pesos pesados do cantor, por outro também dá oportunidade a outros temas como “Duas Amigas” ou “Acorda Menina”, serem retiradas dos escaparates onde já tinham ficado e trazê-las também para o nosso imaginário.

“No tempo dos assassinos, o tempo de todos os hinos, quem mais jura quem mais mente (…)” Neste disco ninguém mente e toda a gente o sente!





Klepht - Klepht




Klepht
Klepht
Universal (2008)

Formados em 2001, os Klepht são 5 rapazes, oriundos de Lisboa e amigos de longa data. Com muitos anos de amizade e uma longa história de paixão em comum pela música, eis que finalmente em 2008, chega o álbum de estreia da banda, o homónimo Klepht.

Depois de uma longa espera, Klepht, é um disco Pop/Rock que se movimenta claramente sobre uma expressão e referências Rock, que mesmo não sendo de uma evidência extrema, bebem inspiração a bandas como os Strokes, ou os Pearl Jam. Não é melhor, nem pior do que já conhecemos, pode até não acrescentar muito a uma realidade que já está esmiuçada até ao tutano, mas é um disco agradável, é o tradicional alinhamento de uma guitarra, um baixo e uma bateria, que tem a voz radiofónica de Diogo Dias, que também é VJ da MTV e um letrista que gosta de escrever histórias com princípio, meio e fim, para que, no futuro, um qualquer disco dos Klepht possa ser ouvido como um livro.

Klepht, pode muito bem ser um livro. Um livro de uma história que chega saborosa aos nossos ouvidos e que se junta comodamente a uma viragem da música em Portugal feita de novas prespectivas, novos talentos e qualidade musical. E para quê ser-se original, quando simplesmente se pode dar uma boa continuidade ao que já foi feito…



Linda Martini - Olhos de Mongol






Linda Martini
Olhos de Mongol
Rastilho (2006)

Há bandas que só pelo nome já são praticamente sinónimo de qualidade. E há discos que só pelo título nos despertam um pressentimento para o qual afirmamos: “isto deve ser bom!”
Ora então, partindo deste pressuposto, Linda Martini é um daqueles nomes que nos soam bem e o título deste primeiro disco de longa duração, Olhos de Mongol, é no mínimo sugestivo. Olhos de Mongol porquê? Por serem diferentes? E se forem diferentes, têm outra perspectiva da realidade que não a do resto do mundo? Os Olhos de Mongol dos Linda Martini parecem ter.

Este é um disco duro, cru e sujo até. É um disco sem contemplações, que tem na sua raiva a arte direccionada por caminhos de Post-Rock, Punk-Rock e barulho. Barulho, porque assim se esgota o pensamento e se liberta a alma enclausurada na visão da realidade que não é de todos. Sinto a “Cabeça a Cair”, faz parar, mas não faz pensar, nem avisa do verdadeiro “murro no estômago” que se sente com a explosão de “Cronógrafo”.
Atordoados e indefesos, é assim que recebemos “Dá-me A Tua Melhor Faca” e somos cortados em dois, ora de forma intempestiva, ora de forma suave. Passa o estado inconsciente e abrem-se os olhos que já são os Olhos de Mongol quando ouvimos José Mário Branco declamar: “Mãe, quero ficar sozinho/ mãe, não quero pensar mais/mãe, quero morrer mãe/ eu quero desnascer”.

E por aqui a realidade já é outra, é estuque aplicado em tons escuros, é tempo que não se pode desperdiçar na urgência de “O Amor É Não Haver Polícia” e “Quarto 210”. É tempo que não se tem no fim de um “Amor Combate” colonizado da primeira aparição dos Linda Martini e fechado no ciclo da construção emotiva que a “Severa” eleva os Olhos de Mongol de um pressentimento, a uma realidade.

A realidade de que afinal não há só o nome da banda, afinal não há só o título do disco… Há música de qualidade e afinal isto é mesmo bom!