Rodrigo
Leão
“A Mãe”
Difference
(2009)
Antes de pensarmos no sítio do costume, o Frágil, antes dos Sétima Legião, antes de Madredeus,
antes de tudo, mas tudo mesmo, é “A Mãe”
que surge com a música clássica lá em casa, a música que Rodrigo desprezava a favor dos Joy
Division, New Order e outros tantos dos anos de ouro
do som de Manchester. Mas foi “A Mãe”
que lhe abriu os horizontes musicais. Ela, que nos Sétima Legião sempre lhe deu conselhos, que foi sempre uma fonte de
inspiração e que esteve sempre presente em todos os seus trabalhos.
O álbum “A
Mãe” é uma obra excepcional, digna de dedicação a ela mesmo, à sua Mãe. A
que lhe apresentou o mundo das artes, seja em música, em literatura, em cinema,
ou em pintura. Rodrigo Leão dedicou-lho devido ao seu, na altura, recente
falecimento. Mas assume que a palavra “Mãe”
é de significado forte, tanto no seu sentido poético como filosófico. É a nossa
origem. A vida, a morte, o porquê de estarmos aqui, questões essas, todas elas presentes
neste disco.
Este álbum foi sendo composto ao longo de dois anos e as ideias
iníciais surgiram em movimento, em sítios muito diferentes, em viagens que fez,
aos Estados Unidos, a Itália, à Índia, a Espanha, e desta maneira surge um
disco aberto e não tão minimalista como os anteriores. Há marcas físicas
presnetes na música, como sons de rua, crianças a brincar e até o canto de
pássaros que chegou a gravar apenas com o telemóvel. Rodrigo
descreve este registo como mais introspectivo, nostálgico e melancólico. O que
pode ser explicado pelas saudades que sente de casa, da falta que a sua mulher
e os seus filhos lhe fazem e, a sua mãe.
Rodrigo
Leão
é, sem sombra de dúvidas, um compositor de excepção. E este trabalho é muito
ambicioso. Se, em 2004 se encheu de orgulho ao trabalhar com Beth Gibbons e com Ryuichi Sakaamoto, em Cinema, álbum que provou o alcance da sua música e do
seu apelo universalista; aqui conta com três participações de peso: Neil Hannon (Divine Comedy), Stuart A.
Staples (Tindersticks) e Melingo
( grande embaixador do Tango Argentino).
É também a primeira vez que usa vozes masculinas. Os britânicos foram os
próprios a escrever as letras das músicas a que dão voz. No caso de “This Light
Hold So Many Colours”, Rodrigo
assume que era exactamente a voz de Stuart
que pretendia, pela melancolia que trazia, fazia todo o sentido. Já no caso de “Cathy”, era um tema
instrumental mas que achou que valia a pena ser cantado e convidou Neil para o fazer. Melingo por outra, já era um músico que figurava nos planos do
compositor e quando soube que este ía fazer uma tournée pela Europa na altura de gravação do álbum A Mãe, contactou-o logo porque era um
músico, diz, que fazia todo o sentido neste disco.
O músico auto-didacta, tem a capacidade de
fazer música simples mas que soa complicada, músicas de uma simplicidade
sofisticada. Criou canções intemporais para a voz de Ana Vieira, que é também uma voz de excelência, mágica e doce.
O Fado
é Portugal, está presente nos sítios, nas pessoas, na literatura, o que faz de
nós portugueses melancólicos por natureza. Mas Rodrigo Leão transporta a melancolia de uma maneira tão maravilhosa
que faz com que tenha tanto de portuguesa como de universal. É uma melancolia
que transmite calma, serenidade e até esperança.
A Mãe é melhor
homenagem possível à pessoa que lhe abriu horizontes, fazendo que os ouvintes
também os abram e contemplem a sua música, viajando para onde o profundeza do
pensamento nos quiser levar.

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