Humanos
Humanos
EMI (2004)
Quando achamos um tesouro, guardamos para
não perder. Este tesouro não podia ser guardado, tinha, obrigatoriamente, que
ser partilhado de tão precioso que era para o mundo musical. Mas o tesouro não
estava completo, não estava em condições de ser mostrado no seu esplêndor e teve
que ser trabalhado.
António
Variações teve um percurso curto na música, gravou apenas 2 Singles e dois LPs, num
curto espaço de tempo, entre 1982 e 1984, ano em que viria a morrer
prematuramente. Apesar da curta carreira, foi dos artistas que mais deu que
falar, tanto pelo seu estilo peculiarmente extravagante e excêntrico como pelo
seu inovador estilo musical. Não é em vão quando se diz que nasceu antes de
tempo, pois teve visões e noções de musicalidade, do que podia ser misturado ou
não, e nunca viu contradições em conjugar todas as suas influências musicais,
fossem de que géneros fossem. Foi, portanto, um dos músicos que mais
influenciou a música portuguesa e que ainda continua a influenciar. Basta
dar-nos conta de como a sua música mantém uma actualidade impressionante.
As músicas estavam lá, as letras também
estavam lá e as maquetes tinham o mais importante, a criatividade única de António Variações. E assim nascem os Humanos.
Há sete dias da semana, sete
notas musicais, sete cores no arco-íris. O número da perfeição, 7, foi o número de
músicos no projecto. Os mistérios do
doze dizem respeito às relações entre o abstrato e o concreto, entre a Trindade
e o mundo material. Este foi o número de músicas, 12. O que não deixa de ser
curioso, pois Variações defini-se como algo abstracto, mas era bastante
objectivo em relação à sua música.
Curiosodades à parte, este projecto é muito bem conseguido, sem descurar
a imagem e a sonoridade altamente particular de um dos maiores nomes da Pop nacional. É talvez um pouco mais
fresco e mais aberto do que o músico nos habituou. Mas convenhamos que Humanos é um projecto de
tributo/homenagem e não de imitação. Cada músico trouxe a sua própria
identidade e aquilo que as músicas e letras os faziam sentir, transpondo depois
nas interpretações. É normal dar-se destaque às vozes, Camané, Manuela Azevedo
e David Fonseca. É o
confronto/destaque maior que encontramos em comparação com Variações.
Uma vez que este tinha uma verdadeira paixão pelo Fado e a sua própria voz e timbre tinham
algo do género, Camané foi das vozes
mais bem conseguidas. A voz de um fadista carrega sempre mais qualquer coisa
que outro vocalista não tem, fazendo, francamente, lembrar a alma que António Variações colocava em todas as
suas performances, quer fossem em estúdio ou ao vivo. David Fonseca tem uma voz
que traz a tal frescura às canções que interpreta. Manuela Azevedo fica assim que a meio de ambos. Além do mais, é uma
voz feminina a interpretar músicas que o músico compôs para si próprio e não
para uma mulher.
De uma maneira geral, a visão dos Humanos está fez-me muito mais Pop do
que as próprias maquetes transmitiriam, mas seguramente que isso não
desagradaria a António Variações,
artista que foi verdadeiramente popular, que acolheu o nome “Variações” porque gostava da definição
de elasticidade, liberdade e flexibilidade que o nome trazia. E o mais
importante é sentir que o artista não foi defraudado, mas sim abordado por
músicos experientes e conscientes da importância que um disco destes tem, sem
quererem mérito para si próprios mas sinceramente honrar um nome grande da
música portuguesa. É raro ver casos assim de sucesso. O mérito é dos artistas
que não pediram protagonismo para si mas sim para a música, a música de António
Variações.

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